domingo, fevereiro 18, 2007

Coimbra – cidade da exumação cultural














Por exumação entende-se o acto de tirar da terra, de tirar da sepultura. Na cultura da cidade de Coimbra nada mais acontece senão a reprodução do mesmo, a ideia de que só é possível sitiarmo-nos no passado, no que já foi votado à sedimentação arqueológica de se ser digno a toponímia, tal como o Penedo da Saudade é verde, quer dizer, é esperança (de morrermos com vista para um estádio de futebol por pagar, seja dito). A saudade só apela aos mortos porque, na dita “cidade do conhecimento”, são os mortos que têm a vida. Se o Penedo da Saudade são lápides de poetas que foram e que se pretendem imortalizar, é coerente dizer que os futuros jardins da cidade não terão poesias de ninguém. Porquê? Porque hoje, na cultura, antes de ser alguém em Coimbra, todos (ou praticamente todos) migram para poder realizar um projecto cultural.

É sabido que o poder da globalização está na capacidade de afirmação do local. E é também sabido que Coimbra é uma cidade universitária, na auto-estrada do conhecimento. Também é sabido que a cidade é nacionalmente conhecida como uma cidade da bebedeira e da estudantada assim orientada (e conduzida pela “política do conhecimento”). Já não é sabido que todos os anos (desde que Portugal é democrata ou, assim, simpatizante), nesta cidade, praticamente todos os artistas migram, escusando-se de afirmar como possíveis lápides jardinais.

A universidade move a economia pragmática e espiritual da cidade, dá trabalho a muita gente. Parte deles são os agentes de conhecimento que, através do honorário público, têm a missa a seu cargo, em preparar os sempre novos jovens-adultos para a vida activa (como outrora, os missionários), quer dizer, dar-lhes conhecimento para serem pessoas inteligentes e expeditas, científicas e criativas suficientes para produzirem novo conhecimento. Nesse movimento, os jovens-adultos, electrizados pelo ímpeto, envolvem-se em actividades culturais variadas. Muitos deles constroem um currículo paralelo aos estudos. A Associação Académica de Coimbra (AAC) e seus inter-organismos promovem isso mesmo. Assim acontece com a cultura que, como aqui se pretende mostrar, toda a gente a tem, mesmo sem o saber. Porque é desta fonte que quase tudo brota nesta cidade, também é dela que tudo se esvai, não por culpa própria, mas por culpa de todos os responsáveis políticos que determinam o escoamento das águas.

Desde que Coimbra foi Capital Nacional da Cultura (com a maioria dos seus responsáveis e irresponsáveis esquecidos), onde paira a cultura? Vamos por partes:

Nas artes plásticas, comecemos pelo CAPC, porque também surgiu da AAC e porque parece fechado, não se percebendo porquê, sendo ele uma oportunidade da arte contemporânea se abrir na cidade, porque se fechou a si mesmo e porque foi abandonado?; A Secção de Fotografia parece agora reabilitada na AAC, tendo que ser “pró-secção”, porque a antiga (também da AAC) transformou-se no Centro de Artes Visuais, diga-se (apesar do corporativismo), uma oportunidade quase ganha na cidade. Digo “quase ganha” porque lhe falta ser realmente da cidade. Primeiro, porque parece que a cidade (na sua representação política) parece não estar interessada no projecto, uma estrutura de média escala para a arte contemporânea, mesmo que com fortes tendências globalizantes, depois, porque é sabido que não aposta na cultura local para a sua afirmação global indo, parodicamente, ao encontro da tendência municipal que também nada disso pretende; A Casa Municipal da Cultura mais parece um “galinheiro da cultura”, é o que temos para, numa sala sem nobreza fazer aparecer alguns pintores “desesperados” (o que é feito da sala nobre da cidade e que já foi biblioteca municipal?); O Pavilhão Centro de Portugal é um truísmo, quer dizer, o dinheiro tem que ir para algum lado e, se o compraram (depois do estádio), não têm nada para pôr lá dentro; as galerias de arte não existem para a arte contemporânea simplesmente porque nem os médicos, nem os professores universitários a frequentam, nem nunca ninguém será habituado a isso.

Nas artes performativas (teatro, dança, música), todas as associações de teatro emergiram do teatro universitário, e não receberam mais subsídios camarários depois de 2003, exceptuando o atribuído ao ano de 2005 que ainda não foi pago, a não ser para a Escola da Noite e Teatrão_ as únicas companhias que têm um espaço na cidade_ subsídio esse, e bem, atribuído pela primeira vez a partir de regras definidas pela Câmara Municipal (mesmo que nunca tenham sido cumpridas por ela própria, uma vez que nunca respondeu formalmente ao estabelecido nas regras de apoio cultural por ela formadas, contrariando-se a si própria_ pagam os contribuintes). Como se deveria saber, o teatro amador é prioritário na política municipal mas, mesmo aqui, a avaliar pelos programas das instituições dedicadas ao teatro, apesar de parte delas terem no seu programa acções que concernem o teatro amador, não têm subsídio ou apoio da Câmara Municipal (excepção feita ao Bonifrates e ao Grupo de Teatro Amador de Taveiro_ todos os outros: “chapéu”); O Teatro da Cerca de São Bernardo quanto custou? É que já está pronto e não existe, já tem cadeiras da bancada de público estragadas e está vazio, mesmo antes de estrear o quer que seja_ a não ser que contem para este investimento as festas de natal da Câmara Municipal. É novo e já é ruína. Pagam os contribuintes;

A Oficina Municipal do Teatro alberga as duas companhias de teatro hegemónicas da cidade e que apenas serve para isso, para as manter unicamente hegemónicas e únicas candidatas à lápide em algum novo Penedo (talvez, o da Conchada); Fez-se uma escola de teatro numa Escola Superior de Educação, alarga-se a formação teatral na cidade para além do teatro universitário, mas não se dá condições para a fixação desses recém formados na cidade (em consonância com a ausência de condições de fixação para as instituições teatrais existentes). Não existem salas-estúdio nem para teatro, nem para dança (a Trampolim era a única associação a dedicada à dança e dissolveu-se à uns anos, com os seus membros a migrarem para outros destinos). O Teatro Académico de Gil Vicente mantém-se o único resistente em promover as artes performativas na cidade, honrando a Universidade de Coimbra mas, também ele, se viu abandonado pelo apoio camarário. Vive, porque os seus responsáveis assumiram a difícil tarefa de não querer sugar apenas os dinheiros das propinas estudantis, e espera-se que vive para além do abandono que a política da cidade lhe ofereceu. Reinventa-se com as possibilidades que tem.

Quanto à música, para além das bandas Rock que todos conhecem, e que conferem já uma identidade simbólica à cidade, vanglorie-se a Cosa Nostra que, residente por um dia semanal na Via Latina, põe Coimbra no mapa da música electrónica internacional. Agora, parece, também o Ar de Rato alberga, por um dia semanal, uma programação para o Rock. Não se trata de fazer publicidade aos espaços, trata-se de tornar visível o trabalho que pessoas alheias a esses espaços estão a fazer pela cidade. Tal como no teatro, na música, são apenas resistentes que ficam, masoquistas que não têm nenhum chicote sobre eles mas que, sem eles mas com chicote, nada aconteceria nesta cidade. Todos os outros partiram, não por não serem de cá, por apenas cá ter estudado, mas porque não existe uma política que promova a sua acção/formação fixada, em ordem a difundir nos cidadãos a oportunidade de fruição cultural. E nesse sentido, os poucos que são, são heróis. Hoje, deveriam ser tão importantes como as lápides, porque são vivos e podem, assim, colocar Coimbra no mapa.

Falta a Coimbra uma política da cultura consonante com a “cidade do conhecimento”, uma política que esqueça a prioridade das lápides e se arremesse para os jovens-adultos que forma. Falta a Coimbra pequenos estúdios (não se trata, de facto, da “dependência do subsídio”, argumento que faz reagir o eleitorado mais inócuo e pouco esclarecido em relação ao futuro dos seus filhos), mas espaços que promovam a emergência de grupos e pessoas criativas, que permitam a recepção de outros grupos e pessoas europeias, incentivando o intercâmbio (alguém sabe o que quer dizer cidade geminada? Não é claro que a globalização é o poder de afirmação do local?). Falta a Coimbra vontade política para transformar a cidade universitária (que epitomizaram de “cidade do conhecimento”), uma cidade em que a cultura viva é conhecimento. Porque nesta cidade é impossível criar um mercado de trabalho da cultura sem condições que alberguem pessoas, todas elas migram para Lisboa, para o Porto, para Barcelona, ou para onde for possível fazê-lo (conhece-se grandes projectos aqui realizados e, por isso, citados). E que outro património cultural é possível acrescentar senão o das pessoas que aí vivem? Que outro património tangível e intangível é possível acrescentar para além das pessoas vivas?

A cidade da exumação há-de não ter mais razão para existir porque se esvaem os artistas (para não falar dos empresários) que nela nascem, ainda que aqui formados. Também Zeca Afonso foi e, depois dele, actores e actrizes, músicos e programadores, pintores, escultores, e dirigentes associativos que procuravam na cultura a sua existência. Coimbra é cidade universitária e sempre o será, forma pessoas e dá-lhes o apetite cultural da formação, contrariando a imagem de Coimbra, “cidade da bebedeira”. Contudo, sabe a cidade enxotá-los, antes mesmo de os acabar de formar, pela sua imbecilidade em traduzir educação em sociedade ou, formação em cidadania. Parece que os governantes da cidade estão realmente interessados em fazer crer que “conhecimento” é “bebedeira”. É justamente por isso que este texto surge.

Os artistas que estão e se afirmam de Coimbra são uns heróis mas não esperam a exumação, são marginais da proliferação de grandes superfícies comerciais que se sobrepõem a projectos de shoppings, ou lojas, em cima de teatros que podiam continuar a adaptar-se à ideia de cidade da cultura, para afirmar o local, quiçá, global. Agora, já existem centros comerciais que foram teatros e que, ambos, faliram. Se os últimos foram por mão da Câmara Municipal (executivo anterior), os primeiros são das leis do mercado. O Avenida (teatro e shopping) faliu. Sugiro que se faça do espaço um museu zoológico, melhor, um museu de lápides dos génios que governam esta cidade (não necessita de alteração nenhuma, arquitectónica ou sociológica), continuará a ser um projecto falhado de reinvenção, como a cidade começa a ficar conhecida em termos culturais, económicos, sociais...

Coimbra é a cidade da exumação, da desterritorialização, de deixar de ser espaço de afirmação cultural (nem os ranchos folclóricos ou filarmónicas resistirão), uma cidade perdida no conhecimento (até a universidade, em muitas dimensões, se vê inapta). Coimbra, no futuro, para exumar, só mesmo o cimento, com placas alegóricas ao seu desaparecimento. Como a maioria das pessoas que se esforçam culturalmente, bye bye Aeminium, bye bye Coimbra, também eu me vou.

Ricardo Pankkas

4 comentários:

Anónimo disse...

http://denunciacoimbra.blogspot.com/2007/02/coimbra-cidade-da-exumao-cultural.html
(...) puderia dizer sem palavras, mas trata-se de um texto que merece ser lido e divulgado e que, além de tudo mais, que me apanha em sincronia temporal com o autor do texto...

pela minha parte resta dizer que foi um prazer, doloroso muitas vezes,ter vivido e trabalhado nesta cidade, e não é sem alguma amargura que me vou...

aos amigos que ficam um abraço,

afonso

Denúncia Coimbrã disse...

Outro abandono.
Mais um que vai tentar realizar-se para outro lado.
Será que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida?

Zé do Telhado disse...

Agora faça-se silêncio que fazendo bem as contas, um a seguir ao outro, quantos mais saírem melhor para os que ficam... instalados nos bastidores.

Ricardo Pankkas, podes ter a certeza que te vamos buscar onde estiveres acaso se dê o "milagre das rosas". De qualquer modo a estratégia de saída é melhor que manter a pasmaceira e alimentar lacaios com o barulho milagroso das luzes.

Mais um exemplo de saída que seguramente não se deve exclusivamente à falta de apoio a projectos mas também, e bem mais grave, à falta de fibra de muitos.

Eu sei que tu sabes que eu sei... e tu também sabes que não vale a pena. Talvez de fora para dentro seja mais fácil concretizar as coisas.

Mandem abraços ao Ricardo...

Denúncia Coimbrã disse...

Nem são mártires os que partem, nem os que ficam estão a alimentar “lacaios com o barulho milagroso das luzes”. Nem aqui há bastidores, só há plateia. E muda. Cada um tem o direito de procurar ser feliz onde bem lhe apetece. Nós, por cá, também trabalhamos para fora…cá dentro. As novas tecnologias permitem. Em alguns casos, é certo.
p.s: E depois óh Zé do Telhado, vê se não te baralhas, não é o Pankkas que vai embora. É o afonso.